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Clínica Experts

Farmacêutica e doutora em Química, Ana Helena Ubrich sempre foi dedicada aos estudos. Mas foi no Hospital Nossa Senhora Conceição, em Porto Alegre, um complexo de mais de 800 leitos, que ela se apaixonou pela farmácia clínica, aprendendo na prática o que a faculdade não tinha ensinado.
No Conceição, mais de mil prescrições passavam pela farmácia todos os dias. Avaliando esse volume, ficavam apenas duas ou três farmacêuticas por turno.
Por mais que a equipe se esforçasse, não havia tempo para olhar exame por exame, contraindicação por contraindicação, em cada uma das mil prescrições.
Um domingo em família e um doutorado que virou negócio
Ana e o irmão, Henrique, cientista de dados, conversavam sobre trabalho todos os domingos. Em 2017, ele cursava doutorado em inteligência artificial aplicada a processamento de linguagem natural, na época ainda estudando textos de blogs.
Foi numa dessas conversas que os dois decidiram propor a mudança: usar textos clínicos, prontuários do próprio Conceição, para detectar eventos adversos com inteligência artificial.
"A gente tinha tantos problemas reais e impactantes para resolver."
O começo em plena pandemia
Publicar o algoritmo não bastava e colocá-lo para rodar dentro do Conceição também não era tão simples. Henrique, então dedicado em tempo integral ao doutorado, procurou sete hospitais, mas só um aceitou: o complexo Santa Casa de Porto Alegre, 1.200 leitos, com um centro de inovação disposto a validar a ferramenta em reuniões semanais com farmacêuticos de verdade.
A pandemia acontecia enquanto o NoHarm decolava.
Ana e Henrique mantinham seus empregos estáveis, ela no Conceição, ele como servidor público, enquanto o NoHarm começava a crescer por fora.
Para Ana, a decisão de largar a estabilidade por um projeto incerto veio no meio do caos: dois filhos pequenos, hospital lotado de Covid, e o NoHarm ganhando tração ao mesmo tempo.
"A gente não sabe até quando vai durar. Tu tem uma família e tem tudo isso que tu tem que levar em consideração."
A primeira prescrição passou pelo sistema em março de 2020, o mesmo mês em que o Brasil parou por causa da pandemia.
A fortuna nunca foi o objetivo
Conhecendo a realidade do SUS, Ana nunca cogitou cobrar do sistema público pelo uso do NoHarm.
"A gente não queria que essa ferramenta fosse só para quem tinha dinheiro, e sim para todos."
O modelo que sustenta essa gratuidade: cerca de 70% dos leitos atendidos são do SUS e não pagam nada, os 30% de leitos privados, em hospitais majoritariamente filantrópicos e mistos, financiam a operação. Além disso, investidores sociais cobrem parte da implantação nos hospitais públicos que entram na fila de espera.
Mais de 4 milhões de vidas impactadas
Hoje o NoHarm está presente em praticamente todo o Brasil. São mais de 200 hospitais atendidos por uma equipe de apenas 25 pessoas, um modelo possível porque toda a implantação é remota. Passam pela ferramenta mais de 5 milhões de prescrições por dia, e o instituto já soma mais de 4,4 milhões de vidas impactadas.
"Consegui evitar uma prescrição de uma dose 10 vezes maior de morfina que estava prescrita errada, para um bebê."
Reconhecimento da revista Time
A visibilidade internacional começou com uma reportagem da Rest of World sobre a expansão do NoHarm para a atenção primária em um município ribeirinho do Norte do Brasil. Editores da revista Time viram a matéria e entraram em contato pedindo uma demonstração, posteriormente incluindo o Ana na lista das 100 pessoas mais influentes em inteligência artificial do mundo, de 2025.
A repercussão trouxe convites, reportagens, um lugar na lista de Mulheres Poderosas da Forbes e uma medalha da cidade de Porto Alegre.
Atualmente, o Instituto NoHarm segue com o mesmo foco: segurança do paciente e eficiência do sistema de saúde, independentemente de quem esteja no Ministério da Saúde. A meta seguinte já está definida: um edital em Goiás para detectar pacientes aptos a doar córneas dentro da janela de seis horas que a doação exige.
Confira a entrevista completa no Spotify ou YouTube:
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