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Aos 10 anos, a Dra. Manuela Lemos já tinha decidido que seria médica. Sofria com enxaquecas e ia com frequência ao pronto-socorro, onde entrava com dor e saía sem, o que para ela parecia mágica. No mesmo ano, estudou o corpo humano na escola e ficou ainda mais encantada. A mãe, educadora, achou que era cedo demais para ter certeza, afinal, não era uma família de médicos.
“Eu nunca perdi o foco, nunca mudei de ideia, nunca quis fazer outra coisa. Sempre quis ser médica.”
Hoje ela é endocrinologista, com o tratamento da obesidade como carro-chefe do consultório.
Ainda no estágio, um paciente chamou sua atenção
Em 2018, no fim da faculdade, Manuela fazia estágio em uma UBS de bairro periférico. Ali atendia um senhor com diabetes que voltava sempre pior. Os médicos ajustavam a medicação, ele retornava descompensado, ajustavam de novo, e a conta não fechava.
Em um dos atendimentos, ela reparou que, enquanto explicava a receita, ele olhava para ela e nunca para o papel. Nesse momento, ela teve um estalo e perguntou se ele sabia ler. Envergonhado, ele disse que não.
“Ele nunca teve coragem de dizer, até o momento em que alguém perguntou.”
O paciente, apesar de não conhecer letras, conhecia os números. Então ela refez a receita: cada horário ganhou uma cor, e a mesma cor foi repetida na caixa do remédio. Um mês depois, ele voltou com a glicemia controlada. Nunca tinha sido falta de adesão ao tratamento, ele simplesmente não conseguia ler a prescrição.
8 milhões de compartilhamentos
Manuela, despretensiosamente, compartilhou com a irmã uma foto da receita. Essa mesma imagem foi divulgada no Twitter e em menos de uma semana já tinha 8 milhões de compartilhamentos.
Jornalistas procuraram Manuela e a preceptora. O nome do paciente não aparecia na foto, mas a imprensa chegou até ele, que deu entrevista e disse estar feliz por finalmente entender o tratamento. Depois disso, Manuela foi convidada para o Encontro com Fátima Bernardes, ao lado da professora, para falar sobre inclusão e adaptação de prescrições.
Na época, ela ainda era estudante e não tinha consultório, então o efeito direto foi pequeno. Ganhou 2 mil seguidores no Instagram da noite para o dia, uma marca grande para a época, e ficou convencida de que iam embora. Muitos ficaram e acompanharam a trajetória dela na faculdade, na residência e agora no consultório.
“Até hoje tem paciente que fala: eu soube que você é a médica da receita.”
A lição que ela tirou da consulta
Dessa consulta, Manuela guardou uma regra que aplica até hoje: o que importa para o tratamento precisa ser perguntado, nunca presumido. Quando vai prescrever uma medicação cara, como, por exemplo, o Mounjaro, ela pergunta ao paciente se aquilo cabe no orçamento, mesmo quando ele parece ter condições. Já foi surpreendida nos dois sentidos.
“Eu não assumo mais nada sobre ninguém. Eu sempre pergunto.”
Isso se reflete na forma como ela conduz a consulta. Ela se vê mais como quem apresenta caminhos e entende, junto com o paciente, o que funciona para a vida dele.
O que a faculdade não ensina
Depois de formada, Manuela descobriu que a medicina era só uma parte do desafio de ter um consultório particular. Gestão, impostos, marketing e vendas não faziam parte da formação, e ela teve que estudar tudo isso para o consultório funcionar. Hoje tem boa recorrência de pacientes e a agenda cheia.
“Você é jogado aos lobos quando entra na carreira médica, principalmente no ramo do consultório particular.”
O conselho dela para quem está nessa fase é procurar quem já sabe. Sem orientação no começo, diz que provavelmente teria cometido erros graves em coisas básicas, como abrir uma empresa.
IA e canetas: o problema não é o remédio
Sobre inteligência artificial, Manuela vê um ganho enorme de agilidade, desde que haja formação sólida por trás. Uma pesquisa que levava duas ou três horas agora leva cinco minutos. O risco aparece quando o médico deixa a decisão clínica nas mãos da IA, porque a medicina é uma profissão que não admite erro.
“O problema não é a inteligência artificial. O problema é quando ela vira o médico.”
Nas canetas de GLP-1, a posição é parecida. Para pessoas com obesidade, diabetes ou sobrepeso com complicações, ela considera os medicamentos revolucionários. O problema está no uso banalizado, por quem quer perder dois quilos antes do verão, e na ideia de que o remédio dispensa dieta e atividade física.
“O problema não é a caneta. É a banalização do tratamento da obesidade.”
Confira a entrevista completa no Spotify ou no YouTube:

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