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Aos 12 anos, Felipe Paulino trabalhava como servente de pedreiro. Aos 16, ainda carregava cimento e tijolo enquanto sonhava em um dia se tornar mestre de obra, o teto mais alto que conseguia enxergar a partir de onde estava. Hoje, aos 28, ele é doutorando, professor universitário e uma das maiores referências em jato de plasma do Brasil, com uma plataforma de mais de 6.000 alunos.
No CliniTalks deste episódio, ele contou essa trajetória: a infância numa reserva indígena no Ceará, a comunidade Granja de Freitas em Belo Horizonte, a faculdade escolhida por um sonho de sua mãe, e a virada que separou quem ele era de quem ele se tornou.
A escolha que começou por um jaleco
A mãe de Felipe tinha um único sonho declarado: ter um filho doutor que trabalhasse de jaleco branco. Quando ele se inscreveu para administração de empresas, curso no qual ingressaria como bolsista, viu um grupo de alunos passando de jaleco no corredor no primeiro dia de aula. Foi direto para a secretaria perguntar quais cursos usavam aquela roupa.
Nutrição, Fisioterapia, Farmácia, Enfermagem e Biomedicina. Ele nunca tinha ouvido falar da última e perguntou se a nota do Enem dava para trocar de curso. Voltou para casa e contou para a mãe que iria estudar Biomedicina.
Ela perguntou o que era e ele respondeu o que sabia até então: "Não sei, mas usa jaleco. É o que importa."
A escolha técnica veio depois, primeiro veio o símbolo do que aquilo representava.
A rotina não deixava espaço para desculpa
Durante boa parte da faculdade, Felipe continuou trabalhando como servente de pedreiro. Acordava às 5h30, ia para a obra, trabalhava até as 17h e ia direto para a faculdade, muitas vezes de botina e roupa suja de cimento.
A meta que ele havia colocado na própria cabeça não dava margem para justificativa:
"Não importa se eu vim da comunidade, ninguém aqui vai tirar nota mais alta do que a minha."
Essa era a única forma que encontrou de provar, primeiro para si mesmo, que vir de onde veio não era sentença.
A virada de chave, segundo ele, veio com a esposa, na época namorada, de uma realidade financeira completamente diferente. Foi ela quem o ajudou a polir a comunicação, quem levava marmita durante o estágio obrigatório que ele quase abandonou por não conseguir conciliar trabalho e carga horária, e quem repetia algo que ele não conseguia acreditar sozinho: que ele podia sonhar mais alto.
Prisão sem muros
Um dos momentos mais marcantes do episódio foi quando Felipe descreveu o que significa crescer sem acesso a referências de possibilidade.
"Quando uma pessoa não tem acesso ao conhecimento, ela está dentro de uma prisão sem muros, que é o pior tipo de prisão que existe, porque a pessoa não sabe que está dentro dela."
Ele contou que, ao tentar avançar, seja nos estudos, seja namorando alguém de fora da comunidade, ouvia repetidamente que aquilo não era para ele.
O sistema ao redor, segundo ele, não puxa para baixo por maldade na maioria das vezes, mas por um mecanismo de comparação: se ele consegue, por que os outros não tentam também? Esse incômodo cria um campo gravitacional que tenta manter todo mundo no mesmo lugar.
Os três meses sem pacientes
No início do consultório, montado numa cidade do interior com móveis emprestados e um equipamento cedido por um amigo, Felipe cobrava entre R$ 30 e R$ 60 por atendimento. Quando muito, R$ 150, e mesmo assim sentia que estava cobrando caro demais.
Até que recebeu um conselho de um orientador: "Felipe, aumenta os seus preços. É a primeira coisa que você tem que fazer."
Ele aumentou e os pacientes sumiram. Três meses sem movimento, contas apertadas, recém-casado e sem rede de apoio financeiro. Até que começaram a aparecer pacientes de um perfil completamente diferente: a dona da loja de fotografia da cidade, o dono de uma loja de roupa conhecida.
O doutorado que trouxe critério
A decisão de fazer o doutorado fora do Brasil, na Argentina, teve um propósito específico: sair da bolha de tendências e regras que, segundo Felipe, muitas vezes não fazem sentido técnico, apenas comercial. O contato com profissionais de outros países o ajudou a entender que nem toda pesquisa científica publicada é, de fato, confiável, e a desenvolver critério para avaliar embasamento real por trás de qualquer técnica ou equipamento.
Foi essa formação que sustentou sua decisão de manter o foco no jato de plasma mesmo quando a técnica perdeu popularidade no mercado por conta de intercorrências mal conduzidas.
"Eu tinha certeza que a técnica ia se acender de novo, porque os fundamentos não mudam. O mecanismo da pele não mudou. Por que o aparelho ficaria ruim do dia para a noite?"
O que ele diria para quem está começando
Para Felipe, a diferença entre quem sai do lugar e quem fica é menos sobre talento e mais sobre decisão.
"Ou você senta, aceita a realidade que você tem e passa o resto da vida reclamando, ou você senta, vê a realidade que você tem e decide sair dela."
Da obra à sala de aula universitária, do dicionário traduzido à mão ao doutorado defendido em espanhol, a trajetória de Felipe Paulino é, antes de tudo, uma demonstração de que a maior barreira é acreditar que é possível começar.
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