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O Brasil é referência mundial em cirurgia plástica, mas nem sempre essa especialidade foi totalmente compreendida entre a comunidade brasileira. Em 1961, com o incêndio no Gran Circo Norte-Americano, a pesquisa e a experimentação foram forçosamente aceleradas, fazendo com que os procedimentos reparadores passassem a ser reconhecidos como medidas terapêuticas que vão além de objetivos estéticos.
A primeira clínica de cirurgia plástica do Brasil foi fundada em 1930, por José Rebello Netto. E em 1950, já havia um movimento de ampliação desse tipo de procedimento nas principais capitais do país, mas a prática ainda era vista como símbolo de um privilégio inacessível para a maioria da população. A divulgação do trabalho da equipe de cirurgiões envolvidos no tratamento das vítimas do incêndio do Gran Circo Norte-Americano ajudou a expor a real dimensão e relevância social desse procedimento.
Maior incêndio do Brasil
Em 17 de dezembro de 1961, mais de três mil pessoas assistiam a uma sessão do Gran Circo Norte-Americano, instalado em Niterói, a então capital do Rio de Janeiro. Era um domingo atipicamente quente, mas mesmo assim muitas pessoas saíram de casa para participar de uma das atrações mais comentadas da região. Afinal, naquela época a TV era um luxo de poucos, e o circo se mostrava a melhor oportunidade de entretenimento em família.
Próximo ao encerramento da atração, uma chama começou a se alastrar no topo da lona. Em função do revestimento, o material era altamente inflamável: em menos de 10 minutos, a lona caiu e atingiu milhares de pessoas. Considerada a maior tragédia circense da história e o maior incêndio do Brasil, esse episódio matou mais de 500 pessoas e deixou centenas feridas.
Crise na saúde pública
O cenário era de caos completo. A fumaça e o cheiro de queimado começaram a tomar a cidade, que teve o fluxo de veículos afetado nos arredores. Além das consequências esperadas em uma tragédia dessa magnitude, a situação tinha um agravante: como o circo tinha animais, logo se espalhou o boato de que feras selvagens estavam à solta, aumentando a agitação da comunidade.
Mas o problema maior estava no lugar onde deveria estar a solução: em função de uma crise na saúde pública, o Hospital Antonio Pedro, referência na região, estava fechado. A instituição estava tomada por grevistas, que reivindicavam recursos para a manutenção do trabalho hospitalar — a prefeitura dizia que não tinha verba e acusava os governos estadual e federal de não contribuírem.
Isso atrasou o socorro inicial às vítimas, que foram conduzidas a hospitais mais distantes de Niterói e São Gonçalo. Até mesmo o estádio Caio Martins foi improvisado como ponto de atendimento. Segundo apurado pelo jornalista Mauro Ventura, autor do livro O Espetáculo Mais Triste da Terra, o luto era coletivo na cidade, mas os esforços também.
De um lado, profissionais tentavam administrar a confusão na triagem, tendo que escolher entre priorizar pacientes por idade, por gravidade ou por chance de sobrevivência. Do outro, a comunidade se mobilizou para abastecer as equipes: carregando lençois estendidos, voluntários passavam pelas ruas coletando medicamentos, curativos e tudo que pudesse ser útil para o socorro dos feridos.
Expertise no atendimento de queimados
A gravidade da situação comoveu o mundo. Diversos países se mobilizaram em prol do Brasil, e um dos auxílios mais qualificados veio da Argentina. Uma comitiva de médicos do então recém-formado Instituto Nacional de Queimados, de Buenos Aires, se juntou aos brasileiros no atendimento clínico.
Os argentinos eram liderados pelo médico Fortunato Benaim, um dos poucos latinos especialistas no tratamento de queimados na época. Durante sua passagem pelo RJ, Benaim compartilhou seu conhecimento com um brasileiro relativamente inexperiente, mas que se tornaria um expoente da cirurgia plástica: Ivo Pitanguy.
Embora muitos outros profissionais também tenham se doado pelas vítimas, Pitanguy é um dos nomes mais lembrados. Foi ele que, diante da indisponibilidade de material para enxerto no Brasil, sugeriu que o governo fluminense pedisse pele humana liofilizada à Embaixada americana.
Referência mundial
Se entre os brasileiros o lamentável episódio em Niterói revelou a função social da cirurgia plástica, inclusive aos próprios médicos, diante de outros países o Brasil começou a consolidar sua imagem de referência na especialidade. As possibilidades de pesquisa e experimentação daquele momento ajudaram a formar profissionais tecnicamente excelentes e ainda mais sensíveis em relação à condição de seus pacientes.
Daquele trabalho intenso, no qual muitos profissionais tinham que pernoitar no hospital para dar conta de tantos pacientes, se consolidou não apenas a experiência cirúrgica, mas também a dinâmica do trabalho multidisciplinar em situações catastróficas.
Hoje, o Brasil é o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo: foram mais de 2 milhões de procedimentos em 2024. Além de pacientes, médicos de outros países também buscam aqui uma especialização de ponta: todos os anos, cerca de 300 novos cirurgiões plásticos são formados por programas de ensino brasileiros.
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