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“Quem faz Medicina tem que gostar de gente”

“Quem faz Medicina tem que gostar de gente”

Dr. Leandro Brandão virou símbolo de humanização na Medicina, foi reconhecido na Itália e hoje inspira médicos em todo o mundo

Dr. Leandro Brandão virou símbolo de humanização na Medicina, foi reconhecido na Itália e hoje inspira médicos em todo o mundo

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Dr. Leandro Brandão

Filho de médico, criado em Divinópolis, Minas Gerais, Dr. Leandro Brandão nunca teve dúvida de que queria ser médico. O que ainda estava em aberto era o caminho que iria percorrer dentro da Medicina.

Foi na faculdade, durante os estágios de Otorrinolaringologia e as aulas de palhaçaria com um grupo inspirado nos Doutores da Alegria, que ele descobriu não somente a especialidade, mas o jeito de exercê-la. Um jeito que anos mais tarde faria um vídeo de um paciente ganhar o mundo e render um prêmio na Itália.

Convidado do CliniTalks, o Dr. Leandro compartilhou uma trajetória marcada pela empatia e a convicção de que a humanização é uma prática diária.

A escolha da especialidade 

A Otorrinolaringologia entrou pela influência indireta da esposa, fonoaudióloga, que compartilhava casos com ele ainda na faculdade. Quando iniciou o estágio na área, a escolha já estava feita.

Já a dedicação a crianças veio naturalmente. Ele sempre gostou do universo infantil, mesmo sem ter muito jeito com crianças antes da faculdade. Foram os bons professores, o contato com o tema e, especialmente, as aulas de palhaçaria do grupo Saracura que mudaram isso.

"Aprendi muita coisa sobre como lidar com a criança nessas aulas. Hoje tem hora que faço mágica, tiro uma coisinha de trás da orelha. Isso veio do Saracura."

Ao sair da residência, ele já havia decidido: não operaria adultos. Atendeu os dois públicos por alguns anos, mais por insegurança financeira do que por vontade. Há três anos, finalmente deu o passo: hoje atende exclusivamente crianças e adolescentes.

Dr Leandro

O momento que mudou tudo

Em 2020, uma cena dentro do bloco cirúrgico ficou marcada e fez a virada de chave acontecer: uma menina de dois anos entrou no centro cirúrgico chorando muito. Quando o anestesista colocou a máscara, ela ficou desesperada. Naquele momento, Dr. Brandão tomou uma decisão.

"Na hora que ela dormiu, falei com o anestesista ‘não entro mais com nenhuma criança assim, não é humano isso, não é possível que não tenha outro jeito’."

A solução que encontrou começou simples: convencer a equipe a permitir que os pais entrassem no bloco junto com a criança. Melhorou bastante, mas ainda não era o suficiente.

Foi numa troca em um grupo de otorrinolaringologistas que surgiu a ideia dos carrinhos elétricos usados em hospitais da Califórnia, mas devido aos custos, essa opção era inviável. 

Navegando por lojas online, ele encontrou fantasias de super-heróis por menos de R$ 20. O primeiro paciente a participar dessa ação vestiu a fantasia do Super-Homem e entrou no centro cirúrgico “voando” nos braços do médico.

"Perguntei se ele queria entrar voando ou correndo. Ele entrou voando. Nem percebeu que estava entrando no centro cirúrgico."

E não parou no primeiro. Cada criança operada pelo Dr. Brandão entra usando uma fantasia e recebe uma preparação honesta sobre o procedimento. Além disso, o momento é filmado para ser enviado à família depois.

"O intuito nunca foi postar. Era mandar para a mãe, para a criança ver depois e lembrar só desse momento. Não quero que a criança fique lembrando da dor."

De vídeo familiar a fenômeno global

Em 2023, um dos vídeos gravados para a família foi compartilhado nas redes de um criador de conteúdo local. O que era um registro afetivo começou a se espalhar.

Em questão de dias, Luciano Huck, Otaviano Costa e outros perfis de grande alcance compartilharam. O Instagram do Dr. Leandro saltou de 5 mil para centenas de milhares de seguidores. O consultório passou a receber ligações de todo o Brasil e de brasileiros vivendo no exterior que queriam operar com ele.

"Fui estudar ainda mais, porque a demanda que chegava era mais séria, mais complexa."

pequenos heróis

O prêmio na Itália

No fim de 2024, e-mails começaram a chegar da Itália. Depois de ignorar alguns, o Dr. Leandro resolveu ler. Era um convite para receber um prêmio da ONG Art for Sport.

No palco em Milão, ao lado de projetos que levam aulas de boxe para meninas na Faixa de Gaza e ensinam culinária a refugiados afegãos, o trabalho do otorrino de Divinópolis foi premiado. A criadora do prêmio o procurou pessoalmente depois da cerimônia para contar que o vídeo a tinha feito chorar, porque a fez lembrar das cirurgias da filha, décadas atrás, sem nenhum cuidado especial para a entrada no bloco.

O impacto vai além do reconhecimento pessoal. Hoje, médicos no Japão e em diversos outros países replicam a ideia das fantasias. A Disney chegou a reformar e equipar um setor pediátrico japonês com o conceito. Tudo porque um vídeo feito para os pais de um paciente em Minas Gerais chegou ao mundo.

"Outras pessoas ao redor do mundo estão fazendo a mesma coisa porque viram meu vídeo. Isso para mim não tem preço."

IA, vocação e o alerta para quem está chegando

Para encerrar o episódio, o Dr. Brandão fez um alerta direto a quem está pensando em entrar na Medicina por razões financeiras: o mercado mudou, as perspectivas de renda também, e quem entra sem vocação tende a se frustrar e a escorregar em condutas que não deveriam existir.

"Por favor, não faça Medicina pensando em ganhar dinheiro. Você vai ficar frustrado. E há uma tendência grande de começar a fazer coisas que não se deve."

Especialmente em tempos de IA, quando o paciente já chega com pesquisas feitas, sintomas pesquisados e hipóteses diagnósticas em mãos, Dr. Brandão reforça que o médico que não estuda, que não se atualiza com artigos científicos toda semana, não tem como responder à altura. E vai perder credibilidade.

Contudo, o maior diferencial, para ele, não é técnico, é humano. É a escuta ativa, o tempo de consulta ampliado, o olhar para a criança como um todo e para os pais como parte do cuidado, não como obstáculo.

"Ouça o paciente, dê tempo, pratique escuta ativa. Veja o paciente como um todo, não como uma orelha, um nariz, uma garganta."

A mensagem que fica é de que inovação em saúde não precisa começar com tecnologia cara ou grandes investimentos. Às vezes começa com uma fantasia de super-herói comprada por um valor simbólico e a decisão de nunca mais aceitar que uma criança entre chorando no bloco cirúrgico.

Confira a entrevista completa no Spotify ou YouTube:



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